• Raniere Figueiredo

A PERCEPÇÃO DO ESPECTADOR ATRAVÉS DAS IMAGENS

Atualizado: 19 de Mar de 2018



Ora, é claro que o espectador é também um sujeito com afetos, pulsões e emoções, que intervém consideravelmente na sua relação com a imagem (AUMONT, Jacques - A Imagem, p. 120)

As imagens de um filme sempre devem remeter um sentido a quem as vê. No cinema, o espectador é submetido a uma projeção de imagens em movimento e, para melhor compreendê-las, as relaciona de forma objetiva e subjetiva ao seu arcabouço de signos e significantes adquiridos ao longo de sua existência. Uma cor, uma forma, um objeto ou movimento físico significam estímulos mentais que despertarão determinadas linhas raciocínio e reações emocionais.


Para Lacan, o sujeito é efeito do simbólico, concebido ele mesmo como uma rede de significantes que só adquirem sentido em suas relações mútuas; mas a relação do sujeito com o simbólico não pode ser direta, já que o simbólico, ao se construir, escapa totalmente do sujeito.” (AUMONT, Jacques - A Imagem, p. 118)

Segundo Aumont a partir de Lacan “o sujeito é efeito do simbólico, concebido ele mesmo como uma rede de significantes que só adquirem sentido em suas relações mútuas” (AUMONT, Jacques - A Imagem, p.118). Com essa informação podemos pensar que os signos culturais, estéticos, eróticos, políticos e religiosos que o indivíduo adquire em suas redes de relação social, servirão como base de significação para tudo àquilo que vê.


Tudo que o homem vê possui um semblante familiar. Toda a forma nos causa uma impressão emocional bastante inconsciente que pode ser agradável, alarmante ou tranqüilizadora. (BÉLA, Balázs, Subjetividade do Objeto – In: XAVIER, Ismail (Org -, A Experiência do Cinema, p.97)

Balázs com isso quer dizer que tudo o que vemos nos provoca estímulos mentais, pois de alguma maneira já estaríamos familiarizados com as suas formas e significados. Como se já tivéssemos codificado um denominador visual para cada coisa que nos circunda e, acaso fossemos expostos a outro objeto com características semelhantes, teríamos em mão um arquivo mental de associações diversas para podermos classificá-lo e assim compreendermos o significado de sua representação. Aumont também diz que “as imagens que o sujeito encontra na vida vêm nutrir dialeticamente seu imaginário: o sujeito faz funcionar, graças a elas, o registro identificador dos objetos, mas inversamente só pode apreendê-los com base nas identificações já operadas.” (AUMONT, Jacques - A Imagem, p.119)


É possível reconhecer determinadas coisas através da representação que elas possuem em nossa mente. Tomemos como exemplo um simples rádio; em nossa mente temos uma imagem mental clara e descritiva de um rádio. A partir dela podemos classificar como rádio algo que se pareça com ele e isso se deve porque sabemos que ele possui certas características específicas que o distingue de uma televisão, por exemplo: possui um dispositivo de leitura de superfície física onde se encontra de forma codificada a música, um dispositivo de reprodução sonora (alto-falantes) e por último, um dispositivo de equalização, com seus respectivos botões. O denominador visual aí seria algo que possua essas três características físicas. Se víssemos um gramofone ou um home theater saberíamos que ambos são alguma espécie de rádio, que reproduz música de alguma forma e isso porque nos baseamos em dados visuais codificados em nossa mente que formam uma imagem mental conceitual de um determinado objeto.


Imagem mental não é portanto uma espécie de fotografia interior da realidade, mas uma representação codificada da realidade mesmo que esses códigos não sejam os do verbal.(...) Codificação que não é nem verbal nem icônica, mas de natureza visual intermediaria (AUMONT, Jacques - A Imagem, p.118)

Segundo Aumont existe uma forma inconsciente presente em nossa psiquê de classificar as coisas através das suas formas. Além de classificar as imagens em estereótipos físicos, nossa mente também pode associar emoções e sensações à determinados objetos. Essa associação emocional e sensorial é embasada nas relações que tivemos com determinados objetos e que, de certa forma, marcaram momentos em nossa vida. Por exemplo: ao vermos uma imagem de uma mulher vestida só de calcinha e com uma taça de vinha nas mãos nós podemos associá-la ao erotismo, a excitação e ao prazer carnal; ao ver um jazigo iluminado pela luz do anoitecer podemos associá-lo a tristeza, a perda, a solidão, ao tenebroso ou ao medonho; ao ver a imagem de um homem correndo carregando uma arma, podemos associá-la ao perigo, à tensão, ao estado de alerta ou ao medo de ser hipoteticamente atingido.


Metz desenvolveu uma teoria da identificação do espectador em dois níveis: identificação primária do sujeito espectador com seu próprio olhar e identificações secundarias com elementos da imagem (...) Toda imagem encontra o imaginário, provocando redes identificadoras e acionando a identificação do espectador consigo mesmo como espectador que olha.” (AUMONT, Jacques - A Imagem, p.120)

No cinema, o recurso que articula os elementos visuais significantes em uma imagem é a fotografia. Com ela podemos fazer o espectador captar significados de forma consciente (raciocínio lógico de assimilação) e inconsciente (trabalhando o lado emocional através da identificação). Na tela do cinema o espectador se transmuta à uma outra realidade possível através das imagens. Segundo Freud (AUMONT, Jacques - A Imagem) o espectador se conecta em um mundo imaginário possível, denominado de mundo diegético, em níveis racionais e emocionais através da identificação que terá com tais imagens em relação a sua experiência de vida. O espectador observa e analisa toda a imagem que lhe é apresentada de forma íntima e delicada; todo seu arcabouço de signos significantes adquiridos em sua vida vem à tona de forma automática para fazê-lo compreender o que lhe é apresentado. Cabe o diretor em parceria do diretor de fotografia orquestrar os elementos dessa simbologia visual a fim de adentrar na mente do espectador e assim transmitir suas idéias e excitar o surgimento de determinados sentimentos.



BIBLIOGRAFIA:

  • AUMONT, Jacques - A Imagem, p. 118, 119, 120

  • BÉLA, Balázs, Subjetividade do Objeto – In: XAVIER, Ismail (Org) -, A Experiência do Cinema, p.97


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